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Enxertia

É a operação que tem por fim fixar uma porção de uma planta sobre outra, soldando-se em seguida os tecidos das camadas postas em contacto passando a constituir uma só planta.

A porção de vegetal que se adapta a outra ou que há de alimentá-lo, tem a designação de enxerto e pode ser ou um fragmento de ramo (garfo) ou um fragmento de casca, contendo um olho (borbulha). Contudo, é quase exclusivamente de garfo a enxertia usada para a videira.

A planta ou porção desta que com as suas raízes há-de sustentar o enxerto tem a denominação de cavalo ou porta-enxerto.

Quando se faz uma enxertia fica-se com um complexo constituído por um hipobionte (parte que fica debaixo da terra) e um epibionte (parte que fica acima da terra). Os porta-enxertos que têm boa afinidade são os que suportam bem o garfo e fazem uma boa união cavalo-garfo, de tal modo que a circulação da seiva bruta e da seiva elaborada se faz perfeitamente.

Época da Enxertia

A temperatura mais conveniente é a que anda por volta de 20º a 25º C. É a esta temperatura que há uma grande actividade celular e, tanto o garfo como o cavalo produzem tecidos cicatrizais em abundância e a soldadura torna-se bastante fácil.

Há que ter em conta à humidade, pois que não pode haver lavagem das anxinas (produto cicatrizante) que se formam na zona das feridas.

Assim a época mais conveniente para a enxertia, é variável de acordo com a região onde se realiza.

Nas Beiras, Trás-os-Montes e Minho o mês de Março é o mais conveniente para esta operação. Na região do Sul (Alentejo Litoral, Algarve) as cepas entram mais cedo em actividade, pelo menor rigor do Inverno e a enxertia pode ser levada a cabo a partir dos meados de Janeiro. No mês de Fevereiro pode iniciar-se no Ribatejo Litoral e nos fins do mesmo mês nas zonas interiores do Alentejo, Ribatejo e Beira Litoral.

A videira pode ser enxertada em todas as idades, pegando com relativa facilidade, como se verificava antes do emprego dos cavalos americanos em que velhas cepas sofriam esta operação correntemente. O certo é que, enquanto os porta-enxertos são de pouca idade, a soldadura com o garfo faz-se com maior facilidade, dando um menor número de folhas.

Objectivos da Enxertia:

  • Obter videiras de uma variedade frutífera com um sistema radicular tolerante à filoxera, nematodes ou outras pragas e doenças
  • Obter videiras com raízes tolerantes a certas condições desfavoráveis do solo (calcário, salinidade, etc.)
  • Avançar ou retardar a maturação
  • Mudar de variedade de videira (reenxertia).

Tipos de Enxertia:

Tipos de Enxertia Descrição Métodos possíveis
Enxertia no local É realizada, normalmente sobre porta-enxertos plantados, no local definitivo, no ano anterior (Primavera) Borbulha e a de Encosto São raramente utilizadas em viticultura, tendo a primeira frequentemente a aplicação em árvores frutíferas e a segunda só, em casos raros, como na substituição de folhas em videiras submetidas a formas regulares.
Fenda Inglesa Esta enxertia só é utilmente aplicável quando o cavalo e o garfo tenham o mesmo diâmetro.

Desde que esta enxertia seja bem feita, sendo iguais os diâmetros do cavalo e do garfo, a soldadura é muito facilitada e não deixa qualquer parte da secção exposta a dessecação.

Para se proceder a esta enxertia faz-se tanto no cavalo como no garfo, um corte em bisel, com igual inclinação. No garfo deve atender-se a que a extremidade do seu bisel deve ficar voltada para o olho situado na base. Em seguida, tanto no cavalo como no garfo, faz-se um pouco além do meio do bisel, uma fenda longitudinal, de 5mm. De profundidade, que permite encaixarem-se um pouco um no outro e acertar perfeitamente os bordos das duas secções desde que estas e as fendas tenham sido bem feitas e os diâmetros sejam iguais.

Fenda Simples Pratica-se em cavalos que sendo de fraco diâmetro são contudo bastante mais grossos do que o garfo.

Faz-se uma meia fenda aberta até meio diâmetro, onde se introduz o garfo que é cortado não em cunha mas com uma secção quase triangular para poder adaptar-se ao formato da fenda praticada no cavalo.

O garfo fica, por consequência, a um dos lados da secção do cavalo ficando este com uma porção de tecidos postos a descoberto. É preferível quando o cavalo tenha secção que permita a aplicação de dois ou mais garfos em volta da secção do tronco, porque isso permite que dê mais rapidamente a cicatrização que reveste a ferida, protegendo-a contra a acção dos agentes exteriores e de decomposição.

Fenda Cheia

Os porta-enxertos são decapitados, próximo do nível do solo, são fendidos longitudinalmente até cerca de 3cm, e na fenda introduz-se o garfo talhado em cunha, logo abaixo de um olho
Enxertia de mesa É realizada mecanicamente na mesa Fenda Inglesa

De encaixe múltiplo

Omega

Porta-enxertos

Porta-enxerto é um termo utilizado para denominar a planta-base ou pé da videira, sendo este enxertado com a casta desejada. Pode também ser chamado por bacelo ou cavalo.

Selecção de porta-enxertos:

Os porta-enxertos devem ser seleccionados, tendo em conta alguns aspectos:

  • A resistência à filoxera
  • As aptidões para o solo relativamente a:
    • Situação do terreno e respectiva constituição
    • Humidade
    • Compatibilidade
    • Secura
    • Calcário
    • Percentagem de sílica
    • Vigor dado aos enxertos
    • Fertilidade das enxertias
    • Precocidade da maturação.

Relação espécie / tipo de solo indicados para a aplicação de porta-enxertos:

Espécies americanas

Características da espécie

Solo indicado

Vitis Ripária
(Montanhas Rochosas até ao Golfo do México)

  • Raízes finas
  • Ângulo geotrópico muito grande
  • Resistente à filoxera, oídio e míldio
  • Ciclo vegetativo curto
  • Resistente à humidade
  • Terrenos “fáceis”
  • Ricos e frescos
  • Falta de aptidão em terrenos áridos ou calcários.

Vitis Rupestris
(Solos rochosos do Sudoeste da bacia do Rio Mississipi)

  • Raízes duras e fibrosas com grande poder de penetração do solo
  • Ângulo geotrópico muito pequeno
  • Resistente à filoxera, oídio e míldio
  • Resistente à secura
  • Ciclo vegetativo longo
  • Pode induzir desavinho por excesso de vigor
  • Solos pobres

Vitis Berlandieri
(Solos calcáricos do Texas e Nordeste do México)

  • Enraíza mal, ângulo geotrópico pequeno
  • Resistente à filoxera
  • Resistência ao míldio satisfatória
    Ciclo vegetativo muito longo
  • Resistente ao excesso de calcário e secura
  • Boa afinidade

Porta-enxertos mais utilizados em Portugal:

  • Híbridos de Ripária + Rupestris – ( 101-14MG / 3309C)
  • Híbridos de Berlandieri + Rupestris – ( 99R / 110R / 1447P / 1103P / 140Ru)
  • Híbridos de Berlandieri + Ripária – ( SO4 / 34EM / 420A / 161- 49C)
  • Ripária + Rupestris + Cordifólia (europeia) – ( 4453)
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